Queridas Irmãs da Rede SMR em África,

Com grande alegria  comunicamos que, amanhã dia 21 de Fevereiro 2012, será o dia que marca o início da segunda Missão Scalabriana em Angola concretamente na Diocese do Uíge, depois de 11 anos de presença MSCS  neste país.

As Irmãs Marivane Chiesa e Rita de Cássia Luis, corajosamente assumem esta nova Missão da Congregação sob a responsabilidade da   Província Cristo Rei.

Partiremos as 4:30 da manhã de Luanda para Uíge. A Caravana será composta pelas Irmãs Rita e Marivane,  o Bispo Diocesano D. Emílio Sumbelelo,   Ir. Edi Eidt e Ir. Marlene Wildner.

A presença naquela Diocese tem como objectivo prioritário uma intervenção sócio/pastoral na  fonteira entre Angola e a República Democrática do Congo (RDC), onde se pretende entre outras, uma acção integrada e transfronteiriça entre as  Dioceses de Kisantu e Uíge.

Concretamente Ir. Marivane Chiesa nomeada  Directora Diocesana da Caritas, irá se dedicar especialmente a projectos sociais em áreas de maior concentração de  repatriados, e as situações de mobilidade humana na fronteira RDC/Angola. Ir. Rita de Cássia Luis nomeada Coordenadora Diocesana da Pastoral para os Migrantes irá  dar continuidade a Organização e estruturação da Pastoral para os Migrantes naquela  Diocese para além de contribuir na formação dos Catequistas na Escola da Diocese e dar aulas de Filosofia no Seminário Maior da Diocese.

É importante mencionar que a Diocese do Uíge para além de todas as situações de mobilidade humana, típicas de uma Diocese de fronteira, é também aquela que recebeu, (junto com a Diocese de M’Banza Congo – Província do Zaire), o maior número dos Angolanos expulsos da RDC em 2009 e recebe actualmente milhares de Angolanos provenientes do RDC – parte de uma última fase de repatriamento organizado.

Queridas Irmãs  agradecemos pela vossa participação à esta nova Missão através da vossa oração, apoio e solidariedade com as Irmãs Rita e Marivane.

Agradecemos as Ir. Marivane e  Rita pelo espírito e amor missionário para com os Migrantes e, desejamos  saúde, força e entusiasmos neste início. Contem connosco na partilha, no apoio e na oração. Não vos deixaremos sós.

Que Jesus Cristo que nos Consagrou na Igreja para o “Serviço Evangélico e Missionário aos Migrantes mais pobres e abandonados” vos acompanhe com a sua luz. Temos certeza que o vosso testemunho e a vossa dedicação na fundação desta nova Missão MSCS, irão suscitar maior entusiasmo missionário Scalabriniano  a todas nós chamadas a participar e viver o carisma MSCS.

um grande abraço a todas.

Pela Rede SMR, Ir. Marlene E. Wildner

A era dos extremos climáticos começou

BY ADMIN

– 01/02/2012 POSTED IN: CAPA

Mulheres caminham em região desertificada do Kenya, próximo ao “Chifre da África”. Lá, seca, pobreza e atraso na ajuda internacional podem ter matado 50 mil pessoas entre 2010 e 2011

Em 2011, acentuaram-se grandes secas, cheias, ondas de calor e desastres ambientais. É preciso agir já, contra reação em cadeia

Por Janet Larsen e Sara Rasmussen, do Earth Policy Institute | Tradução: Antonio Martins

A temperatura média global em 2011 foi de 14,52ºC. Segundo cientistas da Nasa, foi o nono ano mais quente desde que os dados passaram a ser coletados, há 132 anos – a despeito da influência resfriadora do fenômeno atmosférico e oceânico La Niña, e de irradiação solar relativamente baixa. Desde os anos 1970, cada nova década foi mais quente que a anterior – e nove dos dez anos mais quentes de todos os tempos estão no século 21.

A cada ano, a temperatura média do planeta é determinada por um conjunto de fatores, que incluem a atividade solar e o sentido dos fenômenos El Niño / La Niña. Mas os gases que capturam o calor e se acumularam na atmosfera, principalmente devido à queima de combustíveis fósseis, tornaram-se uma força influente, pressionando o clima da Terra para fora dos parâmetros normais. O planeta está agora quase 0,8ºC mais quente do que foi há um século. A média esconde, além disso, sinais espantosos de novos recordes de temperatura e precipitação de chuvas, em muitas partes do mundo. Extremos climáticos que seriam antes considerados anomalias ameaçam tornar-se normas, à medida em que a Terra se aquece.

Em todo o mundo, 2011 foi o segundo ano de maiores precipitações em terra firme. (O recorde atual é 2010, que também igualou-se a 2005, como o mais chuvoso em toda a superfície do planeta. Esperam-se degelos mais intensos, num planeta mais quente; cada aumento de 0,1ºC aumenta o limite de umidade que a atmosfera pode suportar em cerca de 7%. Temperaturas mais altas podem, portanto, desencadear tempestades mais violentas.

O Brasil inaugurou 2011 com um dos desastres naturais mais letais de sua história. Em janeiro, o equivalente a um mês de chuvas caiu num único dia no estado do Rio de Janeiro, provocando inundações e deslizamentos que mataram ao menos 900 pessoas. No mesmo mês, inundações na região oriental da Austrália atingiram uma área equivalente às da França e Alemanha somadas. Foi o terceiro ano mais chuvoso no país, desde que os registros começaram, em 1900.

O desastre climático mais caro do ano foram as inundações na Tailândia, no segundo semestre, que terminaram submergindo um terço das províncias do país. Com prejuízos de 45 bilhões de dólares – ou 14% do PIB da Tailândia, foram também a catástrofe natural mais custosa que o país já viveu.

Em outubro, mais de 100 pessoas morreram em duas tempestades – uma partindo do Pacífico, outra do Caribe – que despejaram chuvas pesadas na América Central. No oeste de El Salvador, quase 1500 mm de chuva caíram em dez dias. E em dezembro, a tempestade tropical Washi atingiu as Filipinas, provocando inundações instantâneas que mataram mais de 1,2 mil pessoas.

Em 2011, a temporada de furacões no Atlântico teve 19 tempestades nomeadas. O furacão Irene produziu enormes inundações no nordeste dos Estados Unidos em agosto, com prejuízos totais de 7,3 bilhões de dólares. O ano foi o mais chuvoso de todos os tempos em sete estados norte-americanos – e foi, ao mesmo tempo, o mais seco para vários outros. Embora os extremos pareçam se compensar, resultando numa média próximas às comuns, na verdade deu-se um recorde: 58% dos estados viveram um ano ou extremamente seco, ou extremamente úmido.

Num planeta mais quente, espera-se que algumas partes do globo sejam ultra-atingidas por chuvas, enquanto outras sofrem secas. Uma estiagem severa no Chifre da África, iniciada em 2010, descambou para situação de crise em 2011, caracterizada por perda de colheitas, preços exorbitantes de comida e subnutrição generalizada. Exacerbada por instabilidade política crônica e socorro humanitário retardado, o número de mortes pode ter superado 50 mil.

Na América do Norte, uma seca que começou no final de 2010 e se agravou em 2011 levou centenas de agricultores do norte do México a marchar até a capital do país, em janeiro de 2012, tentando chamar atenção do governo para seu drama. Quase 900 mil hectares de colheitas e 1,7 milhão de cabeças de gagos foram perdidas devido ao fenômeno – o pior desde que os dados passaram a ser registrados, há 70 anos.

Temperaturas abrasadoras, secas e incêndios florestais atingiram as planícies do sul e sudoeste dos Estados Unidos, provocando prejuízos superiores a 10 bilhões de dólares em 2011. A cidade de Wichita Falls, no Texas, viveu cem dias com temperaturas acima de 38ºC – muito mais que o recorde anterior (79 dias), em 1980. Oklahoma e o Texas tiveram os verões mais quentes de todos os estados na História, quebrando por larga margem o recorde de 1934, durante a onda de tempestades de areia que ficou conhecida como Dust Bowl. James Hansen, diretor do Instituto Goddard par Estudos Espaciais, da NASA, escreve que a possibilidade de tais ondas de calor “era desprezível antes do recente aquecimento global acelerado”. O Texas também viveu o ano mais seco na história. O calor e a estiagem favoreceram incêndios florestais, que queimaram uma área equivalente a 1,5 milhão de hectares no estado. (…)

Em todo o mundo, sete países viveram recordes históricos de temperatura em 2011: Armênia, China, Irã, Iraque, Kuait, República do Congo e Zâmbia. Curiosamente, o Zâmbia foi também o único país a experimentar um recorde negativo de temperatura no ano, quando os termômetros desceram a 9ºC, em junho. O Kuait viveu a temperatura mais alta do ano, 53,3ºC, o maior calor já registrado em qualquer parte do planeta num mês de agosto. Ainda mais ameaçadores para a saúde que os picos diurnos são as temperaturas mínimas noturnas excepcionalmente altas, que indicam a ocorrência de um calor sem pausas. A temperatura mínima mais alta num único período de 24 horas, em todos os tempos, foi registrada em Oman, em junho de 2011: chegou a 41,7ºC.

Até mesmo na região ártica, 2011 foi um ano de calor notável, com um recorde de 2,2ºC acima da média registrada entre 1951-80. Barrow, no Alaska, a cidade mais próxima do Polo Norte em território norte-americano, viveu mais de 86 dias seguidos na temperatura do derretimento do gelo ou acima dela. O recorde anterior era de 68 dias, em 2009.

Ao longo dos últimos 50 anos, as temperaturas no Ártico subiram mais de duas vezes mais que a média planetária, o que provocou derretimento de gelo e permafrost. O gelo do Oceano Ártico está recuando mais rapidamente, e caiu para o volume mais baixo e segunda área mais baixa de todos os tempos no verão de 2011. Com a perda de gelo no verão bem acima da recuperação invernal, a cobertura do oceano tornou-se mais delgada, tornando-o cada vez mais vulnerável a novos derretimentos. Cientistas prevêem um verão ártico completamente sem gelo em 2030, ou mesmo antes.

À medida em que desaparece o gelo, e sua capacidade de refletir os raios solares, fica exposto o oceano escuro, que absorve a energia solar muito mais rapidamente, o que provoca aquecimento ainda maior da região. Isso desencadeia uma espiral climática, acelerando o derretimento tanto no oceano quanto na vizinha Groenlândia, que tem gelo suficiente para provocar a elevação do nível do mar em 7 metros – caso ele se derreta por completo. O derretimento do permafrost também libera dióxido de carbono e metano, dois gases que contribuem para o aquecimento global.

Mesmo sem que todos estes gatilhos disparem, certos modelos sugerem que o uso continuado de combustíveis fósseis poderá elevar a temperatura em até 7ºC, até o final deste século. Tamanha elevação poderia multiplicar os extremos de temperatura e precipitações, a ponto de gerar tragédias perto das quais parecerão minúsculas as registradas nos últimos anos. Só uma redução dramática da emissão de gases do efeito-estufa poderá manter as temperaturas futuras numa faixa relativamente segura.

(antonio@outraspalavras.net)

 

CLANDESTINO:

Desejos, Fronteiras e Mobilidade nas Américas Clandestinas

Fonte: NIEM

3 – INTRODUÇÃO

Este projeto decorre de oito anos de pesquisas antropológicas sobre migração, mobilidade, e modos de vivências e resistências transnacionais num contexto pan-americano e transatlântico (Veissiére, 2011). O projeto iniciou com um estudo de economias informais nas ruas de Salvador da Bahia (Veissière, 2007), e, a partir de uma analise de transações culturais, econômicas, e romântico-sexuais entre brasileir@s desfavorecid@s e turistas estrangeiros, desdobrou-se numa investigação de buscas subalternas de mobilidade global. Qual era o processo de conscientização de brasileir@s marginalizad@s que decidiam sair do país? Quais eram as realidades sociais, culturais, e econômicas das quais queriam sair? Quais outras realidades e sonhos procuravam? Porque escolhiam avenidas de mobilidade global através de parceir@s estrangeir@s? Quais novas vivências transacionais e histórias de vida surgiam neste contexto transatlântico?

De outro lado, temos investigado a experiência de migração, travessias ilegais, e vivências clandestinas de trabalhadores brasileiros na Guiana francesa. As mesmas questões surgiam: porque migrar? Porque buscar a idéia de um mundo melhor, muitas vezes pagando o preço com perigo, preconceito, da ausência de direitos humanos, ou até em muitos casos, pagando com suas vidas?

Mas além de violência, sonhos quebrados, e até morte, subsistem estes desejos de migrantes, que continuam atravessando selvas ou entrando em relações disfuncionais em busca do sonho da mobilidade.

No caso das diásporas econômico-sexuais que partiam da Bahia, estes desejos entre homens “brancos” e mulheres racializadas e exotizadas inscreviam-se parcialmente na violência simbólica da história colonial. No caso dos trabalhadores clandestinos na Guiana Francesa, porém, existiam fatores de mediação destes desejos de mobilidades além de incentivos meramente econômicos. Nestes casos também, qual era o papel—a força—então, da violência simbólica colonial na construção destes sonhos de El Dorado do “primeiro mundo”, ou simplesmente destes desejos de outros horizontes—que o antropólogo francês Michel Franck chama de désir d’ailleurs (Franck, 200?)? Para muitos migrantes subalternos, como por exemplo clandestinos brasileiros na Guiana Francesa ou no Canadá, conseguir chegar, viver e trabalhar no país de destino não sai de uma dimensão simbólica. Tais migrantes vivem dentro da idéia do primeiro mundo sem ter acesso aos seus direitos e privilégios, e em condições de vivência e redes sociais muitas vezes mais precárias que as que eles deixaram para trás.

Além de necessidade para investigações etnográficas mais amplas e comparativas das trajetórias, travessias, e vivência de migrantes, a questão das dimensões simbólicas na mediação dos desejos e experiência de migrante permanece aberta.

4 – JUSTIFICATIVA

Nas ciências sociais, e até na esfera “publica” do mundo globalizando, o conceito de mobilidade tem virado palavra-chave. Mas o que será mobilidade? Para o sociólogo Britânico John Urry (2010), no contexto do capitalismo global, o “capital de mobilidade” tem se tornado mais uma necessidade, junto com outras formas de capitais (humano, social, cultural, financeiro, etc.). A possibilidade de se mover então, passou de um privilégio ou luxo a mais uma categoria imperativa nas economias de competição do capitalismo tardio: ou, em outros termos, a mais uma tirania.

Paradoxalmente, muitos tipos de fronteiras (fronteiras de classe e inclusão social, e fronteiras geográficas entre Sul e Norte, entre outras) têm se fortalecidas agressivamente. Capital, ou imperativo de mobilidade, sim, mas para quem? Temos ouvido mais e mais sobre fluxos e paisagens (Appadurai, 1996) de ideais, pessoas, mercadorias, e tecnologias, muitas vezes com a falsa impressão que estes fluxos se movem e flutuam livremente. Mas no mundo atual, a maioria do mundo não se move, não atravessa fronteiras internacionais, e não atravessa fronteiras de classe e acesso a participação social, econômica e política dentro dos seus países. O fim da era do estado-nação pode ter acontecido para acionários de corporações multinacionais, mas não para o povo; para a grande maioria do povo humano.

No contexto do Brasil, Mercosul, e a América Latina contemporânea, a dialética entre neoliberalismo e novos populismos tem facilitado e restringindo novas mobilidades, muitas das quais acontecem e permanecem na esfera clandestina. São agora novas diásporas “ilegais” de peruanos, colombianos, bolivianos e paraguaios no Ecuador dolarisado, no Brasil, na Argentina, no Chile. Mas também argentinos no Brasil, dominicanos na Colômbia, colombianos em Panamá, etc. Muitos africanos, asiáticos, e até europeus, no entanto, tem se virado para o Mercosul e América Latina nas suas buscas de mobilidade global. Mas a diversidade destas “Américas Clandestinas” vai crescendo:

a maioria dos europeus e norte-americanos que decidiram se mudar para o Brasil, por exemplo, permanece no país de maneira “ilegal”, e em quantidades que vão cada vez crescendo (Veissiére, 2011).

Na útima década, a exportação de políticas neoliberais desde o Norte no primeiro lugar, e a volta da esquerda na América do Sul num segundo plano tem consideravelmente restringido as possibilidades de entrada na America do Norte para a maioria dos latino-americanos. Paradoxalmente, mesmo neste contexto de um melhoramento gradual das suas condições de vidas de origem e de fronteiras internacionais menos permeáveis, o fluxo de latino-americanos (inclusivamente de brasileiros) que entram clandestinamente nos E.U. e no Canadá tem crescido. Bairros inteiros de cidades como Toronto ou Boston, por exemplo, estão agora conhecidas como “Little Brazil”.

5 – OBJETIVOS

Como fazer sentido destas novas mobilidades clandestinas nas Américas? Como fazer sentindo deste Brasil e desta América Latina dentro da qual mais imigrantes querem entrar (mobilidade Norte→Sul), fora da qual mais migrantes querem sair (Sul→Norte), e através da qual mais diásporas “locais” estão emergindo (Sul↔Sul)?

Como fazer sentido, então, destas dinâmicas de mobilidade, e das suas dimensões físicas, simbólicas e experiências?

Este projeto, pois, se propõe de analisar estas novas fronteiras e mobilidades clandestinas nas Américas desde o ponto de vista das representações, desejos, e experiências de migrantes clandestinos, com ênfase nas seguintes dimensões:

• Uma analise global e crítica dos mecanismos econômicos, políticos, culturais e simbólicos que produzem desejos de mobilidade, com um foco particular nas tensões e novas dialéticas entre o neoliberalismo e a volta da esquerda na América Latina;

• Uma investigação e relato, de maneira comparativa, das leituras locais e “vernáculas” da modernidade e da globalização dos atores sociais que decidem migrar: como é que eles entendem a globalização e suas realidades sócio-econômicas, e quais aspectos da modernidade eles escapam e buscam?

• Uma investigação etnográfica comparativa das travessias de fronteiras, das experiências, e dos modos de vivências de migrantes clandestinos nas Américas.

• Uma coleção comparativa de historias de vidas e narrativas de migrantes clandestinos.

• Até a eventual identificação de interlocutores adicionais, a coleção de narrativas e histórias de vidas de migrantes estão previstas nos seguintes contextos:

▪ Várias comunidades diaspóricas no Brasil, na Amazônia, e na Argentina (bolivianos, peruanos, europeus, paraguaios, e “mochileiros”).

▪ Comunidades de brasileiros clandestinos no Canadá, E.U., e Guiana Francesa.

▪ Modos de vivências clandestinas nas seguintes zonas de fronteiras (Brasil-Peru, Brasil-Colombia-Peru, Brasil-Argentina-Paraguay, Colombia-Panamá).

▪ Trechos e travessias de migração clandestinas transnacionais, como foco nas redes de “coyoteros” que seguem o trecho Colômbia-Panamá-América Central-México com destino aos E.U. e Canadá.

6 – METODOLOGIA

Este projeto será realizado numa perspectiva etnográfica, comparativa, e artística. Isto necessita em primeiro lugar uma abordagem qualitativa de observação de participante, ou de participação nas vidas e experiências dos interlocutores desta pesquisa.

Como previamente mencionado, grande parte deste projeto será direcionado para educar um público geral, internacional, e não acadêmico. Plataformas de difusão narrativas, audiovisuais e criativas serão utilizadas neste fim. Uma rigorosa abordagem científica, porém, será mantida na construção do projeto.

A coletânea titulada la misére du monde, dirigida pelo sociólogo Pierre Bourdieu, oferece um excelente exemplo do tipo de narrativas que serão produzidas neste projeto. 15 anos depois da sua publicação, la misére du monde continua a atingir e educar um público geral. Além de uma breve introdução teórica, o livro e composto exclusivamente de narrativas de pessoas marginalizadas sobre suas vidas.

Como conhecer e escolher interlocutores, como fazer perguntas, quais perguntas fazer, permanece um trabalho fundamentalmente antropológico. Mas outras coisas precisam ser ditas nas vozes dos interlocutores.

Redes, trechos e contatos percorridos e adquiridos pelos pesquisadores durante anos de pesquisas etnográficas em vários pontos das Américas (Brasil, Colômbia, Guianas, Argentina, Chile, Peru, Ecuador, Bolivia, Panamá, Canadá, E.U.) serão utilizados como ponto de partida pra recolher historias de vidas de migrantes.

A consultoria de vários colegas acadêmicos e no setor não-governamental que trabalham com migração será solicitada para identificar interlocutores.

A consultoria de especialistas em filmes etnográficos e filmes de arte será também solicitada.

 

7 – BIBLIOGRAFIA

AGIER, Michel. 1998 Lugares e redes: as mediações da cultura urbana. In: Além dos territórios. Ana Maria
Niemeyer e Emilia Pietrafesa de Godói (orgs). Campinas: Mercado de Letras.
ALVES, Isidoro. 1993 Promessa é dívida. Tese de Doutorado, Antropologia, UFRJ.
BOURDIEU, Pierre. 1999 Escritos de Educação. Petrópolis: Vozes.
CARNEIRO, Maria José. 2000 Ruralidade na sociedade contemporânea. In: Ruralidades contemporâneas:
modos de viver e pensar o mundo rural na sociedade brasileira. CLACSO.
CORDEIRO, Graça Índias. 2001 Territórios e identidades sobre escalas de organização sócio-espacial
num bairro de Lisboa. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, nº 28.
COSTA, António Firmino. 1999 Sociedade de bairro. Oeiras: Celta Editora.
COSTA, Antônio Maurício. 2004 Festa na Cidade: o circuito bregueiro em Belém-Pará.
Tese de Doutorado, Antropologia, USP.
COSTA, Xavier. 2002 Festive traditions in modernity. The Sociological Review, v. 50, nº 4
DE CERTEAU, Michel. 1994 A invenção do cotidiano. Petrópolis: Vozes.
DEGENNE, Alain e FORSÉ, Michel. 1999 Introducing social networks. London: Sage Publications.
FORTUNA, Carlos. 1999 Os novos espaços públicos. Revista Crítica de Ciências Sociais, 54.
LEFEBVRE, Henry. 1991 A vida cotidiana no mundo moderno. São Paulo: Ática.
LOPES, João Teixeira. 2000 A cidade e a cultura. Porto: Edições Afrontamento.
LUCHIARI, Maria Tereza. 1996 A categoria espaço na teoria social. Temáticas, ano 4, nº 7.
MAGNANI, José Guilherme. 2000 Na metrópole. São Paulo: Edusp/Fapesp.
MENEZES, Marluci. 2000 Do espaço ao lugar. Horizontes Antropológicos, ano 6, nº 13.
RODRIGUES, Carmem Izabel. 2006 Vem do bairro do Jurunas: sociabilidade e construção de identidades
entre ribeirinhos em Belém-Pa. Tese de Doutorado, Antropologia, UFPE.
SIMMEL, Georg. 1983 Simmel. Sociologia. Coleção Grandes Cientistas Sociais. São Paulo: Ática
WANDERLEY, M. Nazareth Baudel. 2000 A emergência de uma nova ruralidade nas sociedades modernas avançadas. Estudos de Sociedade e Agricultura, nº 5.

 

Relatório Janeiro a Dezembro de 2011

Conferência Episcopal de Angola e São Tomé

Quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Brasil e os desafios da lei de migrações. Entrevista especial com Rosita Milesi

“Embora o fluxo migratório atual de haitianos seja composto fundamentalmente por migrantes, é preciso recordar que os processos políticos haitianos continuam marcados por grandes dificuldades para o estabelecimento da ordem democrática”, aponta a diretora do Instituto Migrações e Direitos Humanos.

Aproximadamente cinco mil haitianos migraram para o Brasil nos últimos dois anos, após o terremoto que assolou o Haiti em 2010. Entretanto, o número de estrangeiros residentes no país ainda é pequeno, cerca de 1% da população, segundo Ir. Rosita Milesi. De acordo com ela, os maiores desafios do Brasil em relação à migração dizem respeito à Lei de Estrangeiros, criada em 1980, na ditadura militar, e “marcada pelos princípios vigentes em tal período”. “Há anos a sociedade civil luta por uma Lei de Migrações, pautada nos Direitos Humanos e que corresponda às exigências de uma política migratória coerente com a dinâmica das migrações da atualidade, contemplando inclusive situação que hoje mais do que nunca preocupam e demandam particular atenção, como, por exemplo, as vítimas do tráfico de pessoas e os migrantes submetidos a trabalho escravo ou degradante, assim como os migrantes em situação irregular, que não podem ser criminalizados pelo simples fato de estarem indocumentados”, ressalta.

Na avaliação dela, é preciso aprovar uma nova Lei de Migrações para suprir as demandas atuais e as “inúmeras situações que marcam a sociedade de hoje e as necessidades da vida dos migrantes da atualidade”. “Está em tramitação na Câmara dos Deputados um Projeto de Lei de iniciativa do Poder Executivo, mas até o presente o Congresso Nacional tem manifestado pouco interesse pela sua aprovação”, esclarece em entrevista concedida à IHU On-Line, por e-mail.
Ir. Rosita também destaca a necessidade de o país investir em uma nova política migratória “diante da crescente preocupação com deslocamentos humanos motivados por diversas causas e razões – mudanças climáticas, crise ecológica e situações provocadas em função de grandes projetos desenvolvimentistas, tráfico de pessoas, tráfico de migrantes, e outras. O cenário futuro da América Latina é de fato de aumento nos fluxos migratórios”. Na avaliação dela, as iniciativas governamentais que buscam uma solução migratória para o fluxo de haitianos devem ser reconhecidas e valorizadas “positivamente”. Entretanto, pondera, “fechar fronteiras opõe-se à integração e à convivência humana e restringe a solidariedade entre os povos, principalmente para com os que vivem situação de maior vulnerabilidade”.

Rosita Milesi é missionária scalabriniana, diretora do Instituto Migrações e Direitos Humanos.
Confira a entrevista.
IHU On-Line – Como é o deslocamento dos haitianos que tem chegado ao Brasil?
Rosita Milesi - O processo de deslocamento por via aérea parte da República Dominicana e tem como destino o Equador ou o Peru. Como estes países não exigem visto para haitianos (o Peru introduziu a exigência de visto para haitianos em janeiro de 2012), estes migrantes não encontravam dificuldades na entrada. Depois, por trajeto terrestre ou fluvial, chegam à fronteira do Brasil, em diferentes pontos. Tabatinga, Assis Brasil, Brasiléia são os mais frequentes. Em alguns casos, em lugar de se deslocar à fronteira com a região Norte, o menor trajeto, chegam pela região Centro-Oeste, entrando por Corumbá, por exemplo. As escolhas dependem das facilidades de transporte, possibilidade de entrar no território do Brasil e, em muitos casos, interesses e estratégias dos “coiotes” que atuam neste trajeto.
IHU On-Line – Qual é o perfil dos haitianos que estão migrando para o Brasil? É possível saber quantos já migraram para o nosso País?
Rosita Milesi - São pessoas que, em meio à pobreza e os escombros de um país pobre e destruído pelo terremoto de 12 de janeiro de 2010, conseguiram reunir junto a seus familiares e amigos uma quantidade de recursos suficiente para pagar o custoso e explorado deslocamento do Haiti até a fronteira brasileira, passando por vários países.  É um trajeto migratório motivado pela busca de trabalho, na esperança de encontrar condições de reconstruir a vida e de ajudar os familiares que deixaram no Haiti.
Até o dia 23 de dezembro de 2011, o Comitê Nacional para Refugiados (CONARE) recebeu 3.396 processos de haitianos solicitando refúgio. Além deste total, na data, havia aproximadamente 1.000 haitianos em Tabatinga (AM) e 811 em Brasiléia (AC), aguardando a entrevista com a Polícia Federal para formalizarem seus pedidos. Assim, mesmo que ainda não tenhamos estatísticas oficiais, pode-se concluir que em torno de cinco mil (5.000) haitianos chegaram ao Brasil, durante os últimos dois anos, ou seja, após o terremoto de 2010. Uma pesquisa realizada por professores da Universidade Federal de Minas Gerais, em base nos processos enviados ao Conselho Nacional de Imigração – CNIg, permite visualizar o perfil da população que chegou ao Brasil no início deste fluxo migratório. Os dados que seguem referem-se ao conjunto de 714 processos que tramitaram em 2010 e 2011. Observe-se que 73 pessoas não responderam o item “Escolaridade”. Neste contingente, temos o seguinte quadro:
Escolaridade segundo o grupo de processos analisados pelo CNIg – 2010-2011.
Escolaridade                   Nº de Pessoas                  %
Analfabeto                                    5                                      0,7
Fundamental incompleto         253                               39,5
Fundamental completo              56                                 8,7
Médio incompleto                      196                              30,6
Médio completo                            84                               13,1
Superior incompleto                    20                                 3,2
Superior completo                       27                                  4,2
Total                                              641                               100,0
Quanto à atividade que exercia antes de sair do Haiti, temos os dados abaixo, extraídos do mesmo contingente de 714 processos, ressalvando que 17 pessoas não responderam este item.
Haitianos no Brasil: setor da atividade exercida antes da saída do Haiti
Setor                       Nº de Pessoas   %
Agricultura                     24                   4,9
Indústria                         14                    2,0
Construção civil          267                 38,4
Comércio                       77                    11,0
Serviços                       170                   24,4
Educação                       40                     5,7
Estudante                      35                    5,0
Outros                            60                    8,6
Total                              697                  100,0
Quanto à presença de homens e mulheres, não tendo ainda um informe geral único, valemo-nos de diferentes fontes e grupos pesquisados os quais indicam que entre 85 e 86% são homens. Em Tabatinga, por exemplo, de 1º de janeiro até 31 de dezembro de 2011 chegaram 2.428 homens, 401 mulheres e 12 menores.
IHU On-Line – Os haitianos vêm para o Brasil apenas na condição de imigrantes ou também de Refugiados?
Rosita Milesi – O refúgio é um instituto jurídico para proteger pessoas perseguidas que tem sua vida ameaçada e que necessitam de proteção internacional. Os haitianos sofrem as consequências de uma catástrofe
natural, mas não são vítimas de perseguição, não atendem os requisitos do conceito de refugiado previsto na Convenção de 1951 e na legislação nacional (Lei 9474/97); portanto, o Comitê Nacional para os Refugiados – CONARE não encontra amparo para deferir seus pedidos de refúgio. Vale-se, então, da Resolução Recomendada nº 08/06, do Conselho Nacional de Imigração, que no Art. 1º “Recomenda ao Comitê Nacional para os Refugiados – CONARE (…), o encaminhamento ao Conselho Nacional de Imigração – CNIg, dos pedidos de refúgio que não sejam passíveis de concessão, mas que, a critério do CONARE, possam os estrangeiros permanecer no país por razões humanitárias”.
Com base nesta Resolução, o CONARE remete os pedidos de refúgio dos haitianos ao CNIg que, após ampla reflexão e análise da situação do Haiti e das graves consequências que o terremoto de janeiro de 2010 causou na população e em toda a estrutura social e governamental, decidiu conceder Residência Permanente por razões humanitárias, com base na Resolução n. 27/98, que trata dos casos omissos e especiais. “Na aplicação da RN n. 27/98, o CNIg tem considerado as políticas migratórias estabelecidas para considerar como “especiais” os casos que sejam “humanitários”, isto é, aqueles em que a saída compulsória do migrante do território nacional possa implicar claros prejuízos à proteção de seus direitos humanos e sociais fundamentais”
(Extrato do voto aprovado pelo CNIg em reunião de 13/03/2011).
Em síntese, os haitianos, ao chegarem ao Brasil, tem apresentado pedido de refúgio, mas, sendo eles efetivamente imigrantes, a solução migratória concedida pelo Conselho Nacional de Imigração é a Residência Permanente por razões humanitárias.
Cabe, contudo, destacar que,  embora o fluxo migratório atual de haitianos seja composto fundamentalmente por migrantes, é preciso recordar que os processos políticos haitianos continuam marcados por grandes dificuldades para o estabelecimento da ordem democrática. A instabilidade política ocorre em meio a uma economia fraca e uma sociedade civil bem fragilizada. Portanto, não se pode generalizar afirmando que são todos migrantes, como também não se deve afirmar que sejam necessariamente refugiados. Cada caso deve ser apreciado pelas autoridades brasileiras em sua especificidade.
IHU On-Line – Quais são as maiores dificuldades encontradas por eles ao ingressarem no país?

Rosita Milesi -

Quando chegam ao Brasil  os haitianos já consumiram praticamente toda a “reserva econômica” que tinham em mãos. Deste fato, somado às já tão precárias condições em que deixam seu país, resulta uma realidade de completa vulnerabilidade social.
Assim, na chegada em território brasileiro necessitam emergencialmente de abrigo, alimentação e documentos que lhes permitam a estada legal e o posterior deslocamento no Brasil. Querem trabalhar para ganhar o próprio sustento e, portanto, superar as dificuldades de acesso ao mercado de trabalho é de fundamental importância. Somam-se a essas dificuldades o estranhamento com a cultura local, as dificuldades de comunicação, o desconhecimento do idioma (a maioria fala o creolle – língua nativa haitiana). Uma dificuldade que os afeta são também os parcos recursos das prefeituras e órgãos estaduais no acompanhamento dessa demanda por assistência, proteção social, capacitação profissional e inclusão laboral.
IHU On-Line – Como a senhora interpreta a posição do governo brasileiro em relação aos haitianos e a decisão de aplicar medidas que tentem coibir a entrada deles no país?
Rosita Milesi - No âmbito do governo, considerando-se aqui tanto instâncias específicas – Conselho Nacional de Imigração, Comitê Nacional para Refugiados – quanto os diversos ministérios, os governos estaduais e municipais, há iniciativas que de fato buscaram dar uma solução migratória ao fluxo de haitianos, e este esforço deve ser reconhecido e valorizado positivamente. Destaca-se a decisão de situar os haitianos como grupo especial, necessitado de acolhida e assistência por razões humanitárias e, portanto, acolhidos no território nacional numa situação de excepcionalidade.
Recentes medidas foram adotadas – como a Resolução Normativa nº 97, de 12 de janeiro de 2012 – e queremos crer que venham em favor de melhor administração dos fluxos, principalmente coibir as redes de tráfico de migrantes e a ação dos coiotes, mas preservando sempre o direito da pessoa a migrar e o respeito à sua   Política de migração
Sabemos que a falta de canais legais e viáveis para as pessoas migrarem e buscarem condições de sobrevivência, sobretudo quando se encontram em situação de necessidade extrema, é um campo fértil para a ação de traficantes e exploradores, e acaba forçando estes migrantes ao uso das alternativas inadequadas e enganosas que lhes são oferecidas pelos coiotes. Por isso, estabelecer um plano, com condições específicas, para que os haitianos possam migrar regularmente ao Brasil é medida viável, humanitária e construtiva. Mas, é indispensável que as medidas contemplem todo o processo, tanto da entrada por vias regulares, quanto de acolhimento, aprendizagem do idioma, integração laboral e social na sociedade de acolhida. Assim, além da adoção de “Visto em caráter especial” (art. 2º da RN 97/12), espera-se que medidas de acolhimento, integração e acesso a políticas públicas sejam asseguradas para uma efetiva e digna acolhida e inserção dos haitianos no País.
Não queremos deixar de expressar nossa preocupação em relação ao risco da política gerar distorções, como, por exemplo: – aumentar a exploração dos haitianos por parte das redes de tráfico de migrantes, tendo em vista as exigências formais e as eventuais dificuldades de acesso dos mais necessitados; adotar outras vias de acesso irregular, o que importará no aumento da exploração por parte dos coiotes e na continuidade do fluxo de indocumentados que ficarão sujeitos a medidas severas do governo; dificultar aos haitianos eventualmente necessitados de proteção o acesso ao pedido de refúgio.
Reiteramos que não podem faltar medidas severas de combate às redes de tráfico de migrantes e aos coiotes. Este é um ponto de fundamental importância, para não deixar as pessoas que se encontram em situação de necessidade e de vulnerabilidade expostas à ação destes grupos inescrupulosos que vivem a exploração e de um verdadeiro contrabando de migrantes.
IHU On-Line – Como o Brasil deve agir em relação às suas fronteiras, considerando que muitos imigrantes as atravessam e entram irregularmente no país?

Rosita Milesi -

Pautado pelo respeito aos direitos humanos e tratamento com dignidade e condições de acolhida a seres humanos que chegam, muitas vezes, em situações precárias, após uma longa e difícil jornada migratória.
Faz parte das atribuições do Estado estabelecer regras para a entrada e a residência de não nacionais no próprio território (as assim chamadas políticas de admissão e de estada). No entanto, é importante que o controle das fronteiras não se transforme num fechamento das mesmas, tampouco em caminho de criminalização de quem entra e reside no território em situação de irregularidade administrativa.
O número de estrangeiros residentes no Brasil é pequeno (cerca de 1% da população, enquanto, por exemplo, há 3,6 % na Argentina, 2,9% no Equador, 1,9% no Chile, 2,4% no Uruguai, 3,5% na Venezuela (cfr. International Migrant Stock, the 2008 Revision). O Brasil não se encontra frente a  uma questão de exagerados
fluxos migratórios e nem há no País uma presença exagerada de imigrantes. O tema deve ser incluído num debate mais amplo sobre política migratória onde a questão seja bem administrada e acompanhada das necessárias medidas de acolhimento e integração social, jurídica, laboral e cultural. Simplesmente fechar fronteiras opõe-se à integração e à convivência humana e restringe a solidariedade entre os povos, principalmente para com os que vivem situação de maior vulnerabilidade.
IHU On-Line – Como a questão dos imigrantes é abordada na legislação brasileira?
Rosita Milesi -
O Brasil ainda convive com uma Lei de Estrangeiros de 1980, aprovada em pleno regime militar e marcada pelos princípios vigentes em tal período.  Há anos a sociedade civil luta por uma Lei de Migrações, pautada nos Direitos Humanos e que corresponda às exigências de uma política migratória coerente com a dinâmica das migrações da atualidade, contemplando inclusive situação que hoje mais do que nunca preocupam e demandam particular atenção, como, por exemplo, as vítimas do tráfico de pessoas e os migrantes submetidos a trabalho escravo ou degradante, assim como os migrantes em situação irregular, que não podem ser criminalizados pelo simples fato de estarem indocumentados.
O Conselho Nacional da Imigração tem suprido as deficiências da superada Lei de Estrangeiros de 1980, regulando, através de Resoluções Normativas, inúmeras situações que marcam a sociedade de hoje e as necessidades da vida dos migrantes da atualidade. Como exemplo, podemos citar a Resolução Normativa n. 77/08, que regula o visto de residência em base à união estável, a RN n. 95/10, que assegura a concessão de residência permanente às vítimas de tráfico de pessoas, a RN n. 27/98, que possibilita ao CNIg a solução dos casos omissos e especiais, entre outras.
Destaque-se que foi justamente com base nesta Resolução 27/98 que se encontrou amparo legal para uma solução migratória de caráter humanitário para os haitianos. O estado brasileiro situou-os na previsão de casos especiais, nos quais se incluem as situações humanitárias, conforme prevê o art. 1º, da RN 27/98, beneficiando-os com residência permanente.
IHU On-Line – Como a Igreja tem atuado em relação aos novos imigrantes que chegam?
Rosita Milesi -
A Igreja no Brasil tem uma atuação significativa na área das migrações. Faz parte de sua história e de seu compromisso pastoral. A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB possui o Setor Pastoral da Mobilidade Humana, com pastorais específicas como a Pastoral dos Migrantes e a Pastoral dos Refugiados. Nesta ação pastoral, há também congregações religiosas que, tanto em âmbito local quanto nacional, atuam no serviço a grupos específicos – vítimas de tráfico de pessoas, migrantes retornados, brasileiros no exterior, nômades, entre outros.
Quanto aos imigrantes recém chegados, na maioria dos casos, o serviço eclesial se realiza na primeira acolhida, esclarecimentos, busca de albergues ou condições de moradia temporária, informações práticas do dia a dia, escritórios de orientação jurídica, suporte para a articulação e auto-organização dos diferentes grupos, denúncia das formas de exploração e xenofobia, bem como na pressão em âmbito político, para envolver as autoridades e as instâncias governamentais que devem assumir seu papel com políticas de efetiva atenção e acolhida desta população.
Trabalho pastoral
Basicamente é este o trabalho que está sendo realizado pela Igreja junto e em favor dos grupos de haitianos. De modo muito especial, as Dioceses e Pastorais do norte do País – Arquidiocese de Manaus, Diocese de Alto Solimões (Tabatinga), Paróquia N. Sra. das Dores (Brasiléia, AC), Pastoral do Migrante de Porto Velho, de Manaus, a Pastoral da Mobilidade Humana, Congregações religiosas presentes na região, assim como entidades com sede fora da região, tais como a Caritas Brasileira, o Instituto Migrações e Direitos Humanos, a CNBB, Congregações religiosas, entre outras instituições, tem disponibilizado seus espaços físicos para acolher haitianos, reuniram recursos financeiros, apoiaram e assistiram estes imigrantes na obtenção de seus documentos, atuaram na busca de trabalho e emprego junto às empresas, investiram muitos recursos no fornecimento de alimentação, acolhida em abrigos e em salões paroquiais, e, incansavelmente, na demanda junto aos poderes públicos que, com raras exceções, foram omissos por longo tempo e depois, muito lentamente, se envolveram na causa.
A atuação em rede e no apoio recíproco entre as diversas instituições eclesiais é um ponto forte nesta missão. A Rede Solidária para Migrantes e Refugiados (constituída por mais de 50 entidades), atuou de maneira articulada no processo de partilha de informações, no encaminhamento dos haitianos em busca de trabalho e na acolhida na cidade ou região de destino, como nas demandas frente ao estado brasileiro, e na partilha dos poucos recursos existentes. A atuação em rede vem superando as distâncias, animando o espírito missionário e compartilhando iniciativas e processos (as chamadas boas práticas), mas os desafios são imensos e toda ajuda será bem vinda.
IHU On-Line – Como o governo brasileiro deve se posicionar diante destas novas imigrações? Em que constituiria uma política pública de assistência aos haitianos?

Rosita Milesi -

O Brasil, desde os meados dos anos 1980 do século passado, tem registrado a saída de um grande número de cidadãos que migraram para outros países, sobretudo EUA, Japão e União Europeia. Diante da violação de direitos e das circunstâncias muitas vezes humilhantes a que eram expostos esses patrícios, o governo brasileiro tem tomado uma posição clara em defesa dos migrantes.
Hoje o Brasil está registrando uma realidade diversa, que é um fluxo de imigrantes, não apenas haitianos, mas também de outras nacionalidades. Seria uma grave incoerência se o governo brasileiro agora negasse aos imigrantes aqueles direitos que defendeu para os emigrantes brasileiros.
Não obstante, a imigração que se verifica em nosso País, não esta diante de uma invasão. É evidente que há um limite para as condições de acolhida, mas, como disse o monge italiano Enzo Bianchi, é importante que o limite não seja determinado pelo egoísmo de quem se fecha no próprio bem-estar, mas pela real impossibilidade de abrir espaço para o outro. Acredito firmemente que, neste momento, o Brasil tenha ainda muita margem de acolhida.
Lei de migrações
Simultanemanete, reiteramos a necessidade de uma nova Lei de Migrações, revendo a tão ultrapassada Lei 6815, de 1980. Está em tramitação na Câmara dos Deputados um Projeto de Lei de iniciativa do Poder Executivo, mas até o presente o Congresso Nacional tem manifestado pouco interesse pela sua aprovação.
Urge também uma nova política migratória diante da crescente preocupação com deslocamentos humanos motivados por diversas causas e razões – mudanças climáticas, crise ecológica e situações provocadas em função de grandes projetos desenvolvimentistas, tráfico de pessoas, tráfico de migrantes, e outras. O cenário futuro da América Latina é de fato de aumento nos fluxos migratórios.
Dada a intensidade do fluxo de haitianos cabe uma ação coordenada de órgãos públicos (município, estado e Federação) nas diversas etapas do processo migratório no território brasileiro: a chegada, a documentação, o deslocamento em busca de trabalho, a inserção no mercado laboral e nas políticas sociais do estado brasileiro, além de suporte na qualificação profissional, no aprendizado da língua, na introdução à cultura local e, também no âmbito da preservação de sua cultura.
É importante fortalecer e ampliar as parcerias entre o Estado brasileiro, a sociedade civil organizada e organizações internacionais. No caso daqueles que obtiverem a condição de refugiado assegurar que tenham todos os benefícios assegurados pela legislação no Brasil e possam integrar-se à sociedade local.
IHU On-Line – Como é possível entender e compreender o fenômeno migração no século XXI?
Rosita Milesi -
Os seres humanos sempre migraram no decorrer da história. No entanto, no começo do século XXI, as migrações são motivadas, como diria Bauman, sobretudo pela busca de inclusão biológica – a sobrevivência – e da inclusão social – a plena cidadania. O mundo moderno universalizou os direitos humanos, mas os negou a grande parte da população mundial. A migração representa uma forma de resistência e, ao mesmo tempo, de denúncia das contradições da globalização neoliberal. Além disso, ela aponta a utopia da “família humana”, da “cidadania universal”, de uma sociedade em que ninguém seja subestimado em sua dignidade. Hoje, mais do que nunca, precisamos desta utopia, talvez não para realizá-la, mas para orientar nosso caminho e garantir o futuro da espécie humana no planeta terra.
Neste início de século temos diante de nós três realidades desafiadoras:
a) nossa casa comum – o planeta Terra – pede socorro, pois o uso desenfreado dos recursos naturais e a poluição estão gerando mudanças drásticas no clima – elevação das temperaturas -  e no equilibro ecológico, sendo uma de suas conseqüências os deslocamentos humanos por razões ambientais;
b) As sociedades democráticas não podem se dobrar a xenofobia; medo e reação adversa ao estrangeiro têm se tornado a base sobre a qual estão sendo construídas leis migratórias e de regulação de sociedades multiétnicas, o que é lamentável.  Há que animar a sociedade a seguir construindo uma perspectiva centrada nos direitos universais de toda pessoa humana;
c) A superação das desigualdades sociais, econômicas, de gênero, etc, bem como o estabelecimento de sistemas políticos marcados pela plena participação dos cidadãos é fundamental para que se coloque um fim ao lado perverso que motiva migrações, ou seja, o fim das migrações forçadas pela miséria e vulnerabilidade social.
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Colton

febbraio 6th, 2012

Coltan – CONGO

Nosotros Imigrantes

febbraio 6th, 2012

Boletim 03 – Nosotros Imigrantes

MANIFESTO EM DEFESA DOS DIREITOS HUMANOS DE IMIGRANTES HAITIANOS

Manifesto DDHH Haitianos

Carissime Sorelle, attenzione: qui sottostante troverete una
bella notizia a  riguardo dell’integrazione dei migranti in Itália.
Facciamo girare, perché si conosca questa nuova realtà.  In allegato c’è
poi un Manifesto in difesa dei Diritti Umani dei migranti haitiani.

Un abbraccio carico di speranza,

Sr. Zenaide

È nato Integrazionemigranti.gov.it,
il portale dell’integrazione che orienta gli immigrati, ma anche le
imprese, le famiglie e gli operatori, tra circa ottomila servizi dedicati
all’integrazione in Italia, con una mappa ragionata, costantemente aggiornata e
accessibile a tutti.

È l’obiettivo di www.integrazionemigranti.gov.it,
il portale creato dal Ministero del Lavoro delle politiche Sociali in
collaborazione con i ministeri dell’Interno, dell’università e
dell’integrazione con il supporto di Isfol e Italia Lavoro. Un’enorme database
online da oggi, riempito coinvolgendo Regioni e amministrazioni locali e dando
conto delle iniziative messe in campo dal terzo settore, a cominciare dai
novecento soggetti iscritti nel Registro Nazionale delle associazioni ed degli
enti che svolgono attività a favore degli immigrati.

 

CONEXIÓN MIGRANTE

febbraio 6th, 2012

CONEXIÓN MIGRANTE ESPECIAL

La voz del pueblo en movimiento

Porto Alegre,4 de janeiro de 2012

 Natal é celebrado com trabalhadores da Arena do Grêmio

 Está sendo construída a Arena do Grêmio no Bairro Humaitá em Porto Alegre-RS pela Construtora OAS LTDA é proveniente Salvador – Bahia é uma das principais empresas de engenharias do Brasil, atuando em construção civil e pesada. Os funcionários desta obra são provenientes dos Estados: Pará, Espírito Santo, Pernambuco, Bahia, Sergipe, São Paulo e alguns do Sul. Portanto são migrantes temporários.

A Pastoral dos Migrantes da Arquidiocese de Porto Alegre realizou celebração de Natal com os operários e diretores da Arena do Grêmio. O Ato religioso aconteceu no dia 22 de Dezembro, às 7h 30min, no Pátio da empresa OAS, no Bairro Humaitá. A celebração foi dinamizada pela Pastoral dos Migrantes com representantes das Comunidades das Irmãs Missionárias de São Carlos Borromeo e formandas, pelos Padres Carlistas, formandos, Diáconos, Agentes de pastorais, Leigos Missionários Scalabrinianos de Alvorada e lideranças da comunidade local. Mais de 1200 trabalhadores participaram do ato religioso. A celebração foi marcada pelo fervor e pela alegria do Natal.

Pe. Lauro Bocchi sc, salientou que o Natal é uma visita de Deus à Humanidade “Deus vem até nós como homem, para nos tornar verdadeiramente humanos. O Natal em nossa vida ganha o sentido da esperança.

O Mestre de Obra, Luiz Gonzaga agradeceu a Pastoral dos migrantes e a Igreja Católica por esse gesto carinhoso da celebração de Natal com os trabalhadores. “Agradecemos, especialmente, esta palavra de conforto e estímulo que vocês trouxeram. Esta celebração natalina é motivo de honra para a OAS”.

Um dos momentos marcantes da celebração foi à encenação do nascimento de Jesus e a entrada da Família de Nazaré na celebração. A emoção tomou conta de todos quando a imagem de Jesus Menino passou no meio do povo, ao som da música Noite Feliz Trabalhadores e empresários receberam a bênção e fizeram reverência, tocando a imagem de Jesus.

Ir. Egidia Muraro agradeceu a presença de todos e enfatizou a mensagem do cartão do natal oferecido a cada um pela Pastoral dos Migrantes da Arquidiocese. “… “que a Sagrada Família, migrante de Nazaré, acompanhe você e sua família, no próximo Natal e ano de 2012”.

A realização dessa atividade atendeu a uma solicitação da direção da empresa, após contato com a Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Vereadores de Porto Alegre e com a Coordenadora da Pastoral dos Migrantes, Irmã Egidia Muraro, mscs.

Dando continuidade à programação a Pastoral dos Migrantes da Arquidiocese no ano 2012, visitará os alojamentos onde será dada atenção especial conforme as necessidades desses migrantes temporários.

  Ir. Egidia Josefina Muraro
Coord. da Pastoral dos Migrantes
da Arquidiocese de Porto Alegre